Espreitando através das barras da prisão ocultista do Tarot – Enrique Enriquez

Neste texto Enrique Enriquez desenvolve, não sem certa ironia, suas percepções de como os tarôs publicados desde o advento do ocultismo são pobres e acabam repetindo erros nas suas estruturas simbólicas. É também uma sutil aula para preparar o olhar mais acurado ao Tarô.

 

“O Tarô é uma criação da Europa cristã medieval”

 

Diga isso a um típico fanático do Tarô. Alguns irão te olhar fixamente sem piscar e mudarão de assunto. Outros irão engolir acidentalmente suas perucas. Alguns vão mesmo começar a vomitar sopa de lentilhas, como Linda Blair em “O Exorcista”.

Por quê?

Porque o Tarô tem sido mantido refém por mais de 200 anos.

Como em qualquer outro seqüestro, o motivo aqui é o dinheiro. Todos os anos, dezenas de baralhos são lançados no mercado, cada um com as ideias, teorias e pontos de vista mais absurdas. Com base na crença de que “ninguém sabe realmente de onde o Tarô vem”, alguns editores e autores enchem seus bolsos com o dinheiro, deixando a verdade sobre o Tarô    enterrada sob um monte de mentiras.

Um sequestro que durou 200 anos …

O Tarô só exige uma boa olhada, um único olhar vazio de ego ou agendas pessoais, para entender que o Tarô não vem do Egito, nem da Atlântida, nem de um planeta extinto chamado Krypton. Tenha apenas um olhar bom e humilde, para ver como o Tarô não contém a receita secreta para uma salada conspiratória com Maria Madalena. Tenha apenas um olhar sóbrio para entender que o Tarô vem, como eu disse antes, da Europa cristã medieval. O Tarô foi desenvolvido lá. Não há necessidade de ir tão longe no espaço para compreender o seu verdadeiro propósito e significado.

Existem muitas teorias mais ou menos lógicas sobre a ligação do Tarô com o cristianismo medieval. Um dos meus textos favoritos sobre o assunto vem de Michael Hurst, e você pode lê-lo aqui. Você também pode consultar pensamentos Jean Claude Flornoy aqui, ou procurar a enorme quantidade de dados históricos que podem ser encontradas aqui.

Li as palavras de um autor muito agitado, que alega que um olhar cuidadoso sobre a vida do Buda pode ajudar a detectar um mito da redenção no Tarô. Eu me pergunto por que esse autor teve que ir tão longe, quando na verdade pode-se encontrar tal mito na mesma cultura em que o Tarô se originou: a Europa cristã. A lógica fofa do entusiasta médio do Tarô é de que só podemos especular sobre suas origens. Isso é verdade. Mas por que temos que desenvolver nossas especulações, em locais tão longínquos quanto no antigo Egito, nas cólicas menstruais Lady Godiva, ou no perdido receituário de torta de ostra de Atlântida? A Europa cristã deve bastar.

Obcecado como todos esses autores foram em encontrar o código “oculto” do Tarô, eles ignoraram o código “público”, aparente apenas olhando para as imagens retratadas no Tarô de Marselha.

Por que é tão importante insistir sobre tudo isso? Primeiro, para reivindicar o Tarô como um instrumento único de inspiração espiritual nativo para o mundo ocidental. O Tarô pode ser tão útil hoje como era há 500 anos, pois, como Michael Hurst diz, ele nos convida a “conhecer o nosso lugar, a praticar nossas virtudes, e a confiar em Deus”. Esta é uma mensagem útil e poderosa, não importa quais sejam as nossas crenças pessoais. Em segundo lugar, é importante insistir sobre tudo isso porque a imagem contemporânea do Tarô tem sido moldada por con-men* e lunáticos, originando todo o tipo de teoria absurda e explicações bizarras.

* Con-men é um termo usado para denominar aquelas pessoas realizam um truque de confiança. Explorando expectativas das pessoas e/ou suas ingenuidades, passam um ar de segurança e confiança e assim venderem seus truques., em resumo são vigaristas. N. do T.

Falando sobre o bizarro, é bom lembrar que a idéia do Tarô provenientes do Egito foi uma invenção de Antoine Court de Gebelin, um “ocultista” que, segundo a história, “descobriu” o Tarô, em 1771, quando viu algumas senhoras jogando cartas. Como o Egito era moda naquela época, Gebelin projetou todas as suas fantasias sobre o Tarô. Ele também tomou algumas liberdades: dando uma quarta perna a mesa de Le Bateleur, colocou um zero no cartão de Le Mat, virou Le Pendu verticalmente… Até aquele momento, o Tarô tinha sido uma obra de arte sacra, transmitida através de uma linhagem dos mestres imagineiros. Os mestres impressores de cartas contribuíram com seu talento para a tradição, reproduzindo imagens de artistas desconhecidos. Court de Gebelin inaugurou o “Tarô do Ego”. Ele foi o primeiro inexperiente amador que se atreveu a redesenhar essas imagens e reivindicando a autoria sobre eles. Hoje sabemos que tudo o que Court de Gebelin “viu” no Tarô era falso. Foi tudo uma fantasia. Mas essas fantasias foram perpetuadas por várias gerações de “ocultistas” que seguiram o exemplo, adicionando seus egos e seus sobrenomes, para o Tarô. O maior problema que temos é que, uma vez que Court de Gebelin e amigos colocaram seus olhos pela primeira vez sobre o Tarô, eles decidiram ver outras coisas, e não o Tarô. Este mal-entendido, promovido por uma mistura de arrogância e ignorância desses autodenominados ocultistas, deu-nos um carnaval de pseudo-Tarôs, todos eles espelham o ego de seu autor, nenhuma delas foi sincera à verdadeira natureza ou propósito do Tarô. A partir deste período surgiram diversas relações, todas supostas, entre o Tarô e a Cabala, a Astrologia, a Tábua de Esmeralda, os galos-de-briga mexicanos, a Yoga, os chacras e Josie e as Gatinhas.

Não admira que a imagem de um leitor de Tarô evoque desconfiança e desprezo na mente do público em geral!

O mais notável destes “ocultistas” foi Arthur E. Waite, que, no início do século 20, encomendou a Pamela Colman Smith para criar um novo design para o Tarô. Waite é conhecido mundialmente por ter “ilustrado” os arcanos chamados menores. Com este gesto, o “Tarô do Ego” evoluiu para o “Tarô para crianças”. Este é o Tarô de quem prefere ler Paulo Coelho em vez de Dante. O Tarô de quem vai escolher Prozac em vez de Platão. Então o baralho de Rider-Waite-Smith foi construído sobre uma tradição equivocada, foi esta iniciativa que lançou as bases para toda a tolice e a loucura que nós observamos hoje no Tarô: “The Blinking Navel Tarot”, “The Ron Jeremy Tarot”, “The Krishnamurti Casual Friday Tarot,” e uma miríade de outros clones, todo absurdos, tudo muito distante da fonte original.

Quando olhamos para o Tarô de Marselha, La Papesse nos informa que o conhecimento triunfa sobre a ignorância e a fraude. Felizmente, existem algumas pessoas interessadas em libertar o Tarô de seus seqüestradores. Para eles, um retorno ao material de fonte é necessário. A re-edição do Tarô de Jean Noblet, o mais antigo baralho de Marselha encontrado, significa que pela primeira vez em mais de três séculos, podemos olhar para o Tarô como era, sem intermediários ou camadas de pó de pirlimpimpim. Ao mesmo tempo, o acesso ao material histórico está cada vez mais fácil. Todas as mentiras que encobriram o Tarô irá persistir apenas entre aqueles que não se desapegam das teorias da conspiração. Além do canto das sereias do mercado, a possibilidade de experimentar o Tarô como um caminho visual único para o auto-conhecimento foi reaberto…

Enrique Enriquez

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