A Grande Greve das Catedrais

Mais um ensaio de autoria de Jean-Claude Flornoy, comentando sobre possíveis hipóteses históricas para o surgimento do Tarô. Trago ele para o português, pois joga luz no que supostamente foi a cultura geral que desenvolveu este jogo de cartas. Digo desenvolveu e não originou, pois a origem (em termos de Tarô) é incerta e praticamente impossível de encontrá-la. Já o seu desenvolvimento apesar de complexo, permite a construção de diversas hipóteses. Através dos acontecimentos do período e da pesquisa e da comparação que podemos realizar com as imagens e baralhos que chegaram até nós podemos ter um pequeno vislumbre de quem debruçou-se sobre estas cartas durante o período medieval.

A Grande Greve das Catedrais – 18 de março de 1314

 

O drama da execução dos dignitários do Templo no dia 18 de Março de 1314 teve duas consequências que o rei Filipe IV, o Belo, não tinha previsto.

Em primeiro lugar, o Templo era também uma imensa e tentacular organização bancária e talassocrática (ou seja, governo ou império do mar). Seu real tesouro foi repartido por seus agentes contábeis sobre o conjunto da bacia mediterrânica e em todas as cidades europeias. As cartas de câmbio valiam como cheques. A marinha era a ligação e mantinha a ordem. O desastre pode ser comparado à queda das bolsas de 1929. As finanças da Europa se recentralizam no norte da Itália e os bens do Templo enriquecem os recursos de banqueiros. Nasce o Banco da Lombardia. A Sereníssima República de Veneza retomará as rotas comerciais do Mediterrâneo durante dois séculos. Assim, o orgulho de um rei fará soçobrar a França em guerras e miséria.

A segunda consequência catastrófica foi a partida praticamente em conjunto dos profissionais formados pelo Compagnonnage para horizontes variados: Itália, Portugal, Oriente Médio… Nessa tarde, os mestres da fraternidade presentes compreenderam que os próximos a irem para a fogueira, seriam eles. Então decretaram “a Grande Greve das Catedrais”. No espaço de três semanas, os estaleiros em curso foram abandonados e a quase totalidade do pessoal tomou os caminhos do exílio. Estes estaleiros serão retomados muito mais tarde, com grandes dificuldades, pelos religiosos. A única construção finalizada após 1314 foi a basílica de Notre Dame l’Epine (1405/1527), perto de Châlons-sur-Marne, seguindo as plantas anteriores. As plantas e o efeito induzido pela forma são corretos, mas a ciência das manipulações energéticas estava ausente.

Construir o sagrado, é construir tendo em conta as forças subterrâneas procedentes do mais profundo da terra.

Estas forças que desde os tempos mais antigos se respeitavam sob o nome de wuïvre. Um sítio sagrado é um lugar, que, no estado natural, é fortemente geopatogênico. É frequentemente, um cruzamento de cursos de água subterrâneos que o torna perigoso para os vivos. Funciona sob um princípio elétrico simples. Quando há uma carga importante no subsolo, o equilíbrio microelétrico da superfície dar-se-á atraindo uma força equivalente vinda da magnetosfera. As forças procedentes da terra são ascendentes, as do cosmos são descendentes. Quando está sobre um ponto geopatogênico, os seus pés estão no equilíbrio microelétrico, mas a sua cabeça não. Estas forças esvaziam-nos literalmente das nossas energias que são aspiradas e digeridas pela terra. Os construtores dos monumentos sagrados sempre utilizaram estes pontos para as suas construções. Eles eram mais perigosos, mais interessantes, porque a força procedente da terra era importante para eles. Esta força, era visualizada como uma aura pelos mestres de obra, que construíam ao redor, à sua medida. Esta aura decompõe-se em três camadas. A primeira, mais perto da terra, é a utilizada no período neolítico para os dólmens (construções megalíticas celtas), a segunda, mediana, é a do povo romano e a terceira, a maior, é a gótica. Com as pedras, sendo utilizadas como micro pilhas, montavam uma gaiola para esta aura e faziam com ela extravasa-se da construção as forças procedentes do cosmos, liberando assim a wuïvre que preenchia o interior. As criptas continuam românicas e são modernizações dos dólmens.

Os construtores do sagrado tinham o sentimento de instalarem nesses locais algo como “máquinas”. Para eles, as obras eram “atanores[1]”, ou seja, eram destinadas a transmutar as populações. Os bispos destes tempos eram os encantadores destas máquinas e dirigiam imensos transes coletivos. Em Chartres era praticado no solstício de verão o transe da lagarta. Desde a aurora as portas estavam abertas e um a um, em fila, a população entrava, ritmando juntas os pés o balanço da lagarta. Bum à esquerda, bum à direita, com os passos pesados, avançavam lentamente para o labirinto e após terem saído, continuavam o balanço e iam tranquilamente amontoar-se sob as abóbadas. Todo o dia, bum, bum, o balanço continuava, que amplifica-se incessantemente e a noite vinda fechava-se as portas de modo que a catedral vibre no máximo. Ao sinal do bispo, de repente estes milhares de pessoas paravam numa fração de segundo, mágico com um silêncio alucinante, toda esta população entrava transe e fundia-se com o divino.

Foi tudo aquilo que Filipe, o Belo assassinou sobre a fogueira dos Templários. Abria-se a porta, em grande parte, à ditadura dos religiosos, o tempo negro da Inquisição começava. A imanência platônica deixava o lugar à transcendência aristotélica. Santo Agostinho foi vencido por São Tomás de Aquino. O ser não podia mais fundir-se com o divino sobre as suas próprias forças, necessitava “a graça” divina, que obviamente, só os padres e os seus rituais podiam induzir.

Os Templários tinham protegido as fraternidades dos construtores, qualquer que fosse a obediência, dos religiosos e dos senhores. O seu desaparecimento deixava-os sozinhos em frente aos impiedosos inimigos.

O sagrado abandonava o ocidente Atlântico cristão.

Profissionais com esta qualidade eram raros. Por toda a parte onde foram, foram bem acolhidos. Veneza era a riquíssima potência dominante no Mar Mediterrâneo, aí trabalharam. Na Itália do Norte onde os tesoureiros do Templo foram a origem das grandes famílias dos banqueiros lombardos, fizeram a Renascença, mas integrando-se, perderam o seu particularismo e secularizaram-se. Nos reinos ultramarinos, ou seja no Oriente Médio, na Cilícia (na Anatólia) em particular, conseguiram conservar a sua alma e manter a sua cultura ancestral. A ciência da “peregrinação da alma”, que havia emoldurado a espiritualidade desde tempos imemoriais, sobreviveu e conseguiu transmitir-se graças ao tarô.

Jean-Claude Flornoy

[1] Na alquimia, um forno de atanor (também chamado de Piger Henricus ou Forno Filosofal) é um forno usado para transmitir calor à digestão alquímica, desenhado para manter uma temperatura uniforme. É o instrumento básico do alquimista.

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