O Compagnon renascido e a iluminação

A passagem iniciática para outro mundo…  para outra realidade.


Esta imagem foi publicada em 1888 por Camille Flamarion em L’atmosphere: meteorologie populaire, com a seguinte legenda: um missionário medieval conta como encontrou o lugar onde os céus e a Terra encontram-se. Esta imagem também foi usada pela Compagnonnage, que atribui a seguinte inscrição: O Compagnon Re-né, durante a passagem iniciática da sua vida para outro mundo… outra realidade.

 

Até onde sei, esta gravura é a última e a única representação de um dos braços essenciais dos Compagnon e de toda a espiritualidade medieval: atravessar durante a vida para outra realidade. Desde que o século XVI encaminhava-se para seu fim, parece que os ensinamentos e os principais caminhos para estas experiências estavam perdidos e somente o Tarô retinha esta memória.

Esta transição, que faz de um compagnon um mestre passante, é representado no Tarô pela carta “Maison Dieu”. O que é esta passagem?

O corpo é o lugar a partir de onde a consciência organiza seu “da-sein[1]” seu “ser/estar-no-mundo”. As sensações físicas tornam-se o princípio de organização do ego.

Então seguidos choques, diversos traumas e a pressão social leva a consciência a entrar no emocional e seu “ser/estar-no-mundo” começa a lutar em ação/reação aos estímulos externos. Este é o segundo nível de consciência na jornada da alma.

Em seguida, assim que a memória e as energias profundas do corpo são despertadas, após várias iniciações, livra-se conscientemente do ciclo de manipulações emocionais e entra num caminho de “iluminação”, num mundo de “discernimento”. A partir deste momento, o ser está totalmente ligado com o mundo que o cerca. Ele deixa a esfera de ilusões e começa a ver, por si mesmo, como ele realmente é, permitindo que outros façam o mesmo. Um período doloroso, onde a consciência encontra o si-mesmo (self), nem aqui nem acolá. As velhas fundações tornam-se obsoletas e o que virá é desconhecido. Este é o terceiro nível da sabedoria: discernimento/percepção.

Esta experiência transformadora é muito semelhante a uma experiência de quase-morte, o que a diferencia é a consciência que acompanha o processo, que é colocada numa situação de observadora.

Desta forma a consciência escapa do corpo, como se expelida numa espiral expansiva na qual primeiramente torna-se completamente cônscia de seu corpo, depois de seu ambiente, então da sua cidade, da sua região, do seu país, do planeta, da galáxia e de repente entra num círculo de luz branca em fusão com o divino. Então, localizada na fonte de todo o tempo ela [a consciência] vê a dança das galáxias e todos os modos que a energia primordial toma. Percebe que o mundo encarna os elementos do fogo, da terra e do ar. Então, por que o momento definitivo de sua fusão nesta luz ainda não chegou, a consciência é trazida de volta deste mundo branco surfando numa onda da encarnação de seu mundo, baseado no elemento água, de volta ao seu corpo aqui e agora.

O indivíduo transformou-se com esta imersão na luz branca, e retorna com dois presentes: o medo da morte desapareceu e uma confiança crescente é estabelecida no seu inconsciente. O volume do “humano-demasiado-humano” que resta para ser trabalhado é menos que 50%, e a lenta estrada para a sabedoria pode começar.

No cotidiano do Compagnon renascido chegam novas responsabilidades.

Jean-Claude Flornoy


[1]Dasein: termo alemão usado por Martin Heidegger na sua filosofia existencialista. Pode ser traduzido como “ser-aí” ou “ser-aí-no-mundo”. Ser-aí é o homem na medida em que existe no dia-a-dia, junto com outros seres humanos em seus afazeres e preocupações. É este ser-aí que inicia toda investigação acerca de seu próprio sentido, o sentido de ser. Assim, Flornoy utiliza um termo utilizado no jargão da filosofia no processo de investigação da existência para usá-lo num processo de reestruturação de uma existência, ligada a uma experiência mística.

 

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