Por que chamar de ‘Casa Deus’?

A carta com a numeração XVI, ou arcano XVI, tem de acordo com o autor, significados diferentes e até conflitantes. Neste texto Jean-Claude compilou algumas das diferentes pesquisas, considerações e hipóteses que se tem feito sobre o surgimento e evolução das cartas. A ‘Casa Deus’ dá muito pano para manga. Acredito que Flornoy considera esta carta, pela importância que à deu  e aos símbolos que alguns gravadores destacaram, como um divisor de águas quanto a algum processo místico presente e praticado pelos gravadores/ilustradores cristãos da época medieval. Lembrando que ela possui uma grande importância no conjunto das imagens do tarô, pois é a primeira a ter os céus habitados…

Semântica

Primeiro de tudo, um pouco de semântica francesa. Durante a Idade Média, no Ocidente, o hospital era chamado de “hôtel Dieu” e não “maison Dieu”. Assim, a pista do hospital parece nos levar a lugar nenhum, ao menos para as datas que nos interessam.

A Igreja, pelo menos naquele tempo, era chamada de “maison de Dieu” e não “maison-Dieu”.

Após consultar a obra de Kaplan, eu me sinto confiante em dizer que a primeiro “torre golpeada por um raio”, aparece nos Tarôs do século 15, no Tarô dito de Charles VI (c. 1480, à direita), isto é, um século, ou quatro gerações de fabricantes de cartões e pintores , após o aparecimento dos naibis. Nós não temos nenhum exemplo do trabalho dos fabricantes de cartas populares, além da folha de Cary (mais conhecida como Cary Sheet, c. 1500, à esquerda), que apresenta um modelo fantasia do tarô de Marselha (as imagens não estão nomeadas) e é anterior à Noblet, à Viéville, ao anônimo parisiense, à Dodal etc.

A diferença principal entre os tarôs populares franceses e os tarôs da família Visconti reside nesta Maison Dieu. Os ancestrais Noblet e Dodal apresentam chamas subindo a partir da torre. A partir de Conver  as chamas tornam-se descendentes.


O que tudo isso significa?

No Tarô de Viéville, sob o número XVI, vemos :

Quando Viéville, emergindo da tradição de Ruen-Bruxelas ou piemontesa, retrata uma espécie de pastor, uma árvore, um rebanho de ovelhas e cabras e uma fonte de luz. Esta fonte de luz está corretamente representada no baralho de Jean Noblet e nas imagens de Dodal, e apenas sugerida no baralho tardio de Nicolas Conver.

E em relação aos outros Tarôs de Marselha?

A torre é a fortaleza do ego, a coroa aberta em sua parte superior indica que o mental relaxou seu controle, a chama ascendente fala da capacidade do indivíduo de se fundir com o divino. Estamos na imanência platônica, em oposição a Conver que apresenta a transcendência aristotélica com uma chama descendente. Conver, no entanto, mantêm as três esferas tradicionais que formam a fonte de luz: abred[1], keugant[2]e gwenwed[3]. O círculo exterior onde nada existe, o círculo do meio da encarnação, e a esfera interna de luz branca da iluminação.

Com o arcano XVI La Maison Dieu, nos encontramos na representação tradicional da experiência de iluminação. É o lugar da consciência, da fusão com o divino. Esses tarôs antigos transmitem uma mensagem simples: cada um de nós pode, através do esforço prórpio e sem ajuda exterior, acessar o estado de consciência em que se é iluminado pela luz branca do que os crentes chamam de “Divino” , mas que na verdade não tem nada a ver com religião. Estamos lidando aqui com o que os franceses chamam “la connaissance“.

O lema da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos (1198-1410) simplifica a questão, embora de forma abrupta:

Si tu ne meures pas avant de mourir, tu mourras en mourant.
Se você não morrer antes de morrer, você morrerá quando morrer.

Então: a Maison é a casa ou o local onde reside a consciência, e Dieu refere-se aos mundos superiores do espírito de luz (nada a ver com divindades ou deidades).

Parece que os nomes para as imagens do Tarô de Marselha provavelmente surgiram no início do século 16, após o Tarô vir do norte da Itália nos bolsos dos soldados e foi levado pelos feitores de cartas da Compagnonage. Isso nos leva à sugestão de Ross Cauldwell, uma alma ambiciosa que investiga como os termos Hotel Dieu, Maison Dieu etc. eram utilizados naquela época (c. 1520). Finalmente, eu estou sem palavras.

Jean-Claude Flornoy

[1]Na cosmologia galesa, é o círculo mais baixo, o círculo inicial.

[2]Ou círculo vazio, onde ninguém, exceto o Criador (o Incriado), pode residir.

[3]Círculo druida de luz branca, simboliza a realização, o conhecimento e a sabedoria.

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