As cartas – de Pablo – não mentem.

Vêm da Argentina as duas titânicas empreitadas que enriquecem o mundo do Tarô clássico. A primeira parte do texto aborda uma restauração do Tarô de Jean Dodal. A segunda parte trata-se de um novo Tarô de Marselha (TdM II), completamente concebido por Pablo Robledo. Onde, sua experiência acumulada permitiu-o a elaboração de um baralho inteiramente novo, mas respeitando o padrão reconhecido como tradicional. Para redigir estes textos fiz uma compilação do que Robledo escreveu em fóruns sobre tarô e no seu antigo blog. Os detalhes vieram através de uma mini-entrevista que fiz com ele, onde demonstrou ser um cara amável e muito acessível. Bom, vamos a eles!


Tarô de Jean Dodal restaurado por Pablo Robledo

Pablo Robledo é o responsável por esta, incrível e celebrada edição. Posta à disposição de forma praticamente artesanal e de edição própria.

O argentino deixou vários detalhes ambíguos sem realizar uma interpretação dogmática e unilateral das cartas, ou seja, sem adicionar detalhes que parecem estar nas cartas.

Uma parte do seu trabalho foi feito como o resultado de uma mente coletiva, onde diversos membros do Aecletic Tarot Forum trocaram informações com Robledo sobre alguns detalhes.

Quase na mesma época em que Jean-Claude Flornoy preparava sua versão restaurada do Tarô de Jean Dodal, Robledo desde sua cidade natal Rio Cuarto, na Argentina, também preparava sua versão restaurada. E assim como o restaurador francês, Robledo foi o mais fiel quanto possível no seu trabalho. Porém, algumas diferenças caracterizam o restauro de Robledo como mais fiel. Se levarmos em conta o tamanho das cartas, ao enquadramento dos personagens e o preenchimento de cores em algumas cartas. Sem contar o dorso das cartas, o baralho do hermano segue a forma original de patinhas em uma só direção (um motivo triangular, como se fossem pegadas de pássaros)  e que, de acordo com ele, possibilitam pistas linguísticas para a leitura das cartas – a linguagem dos pássaros.

As cartas são laminadas por uma camada OPP mate, que além da proteção dá um toque de seda, permitindo um embaralhar suave.

 

 

 

As dimensões das cartas são 126 mm de altura e 68 mm de largura.

 

 

 

 

Moderno Tarô de Marselha editado por Pablo Robledo

Aqui Pablo Robledo afirma ter feito um trabalho como se fosse um mestre gravador, da época de Nicolas Conver, respeitando a tradição de Marselha.  Como o nome das cartas: usando “V” ao invés de “U”, e “I” ao invés de “J”. No caso de Le Pendv, o número usado foi o IIX, da mesma forma que as tradições usavam, o que denota uma idéia de detenção.

Lançado em 2012, foi o resultado de 3 anos e meio de pesquisas e desenhos. Da mesma forma que o Tarô de Jean Dodal, foi lançado em edição própria e de forma semi-artesanal e que atualmente está esgotada.

Para se ter uma ideia da dimensão do trabalho, cada carta era redimensionada até alcançar cerca de dois metros de altura, onde todo detalhe ficasse aparente. Após isso, cada carta era descolorida, na verdade eram pintadas de branco, até sobrarem somente as bordas das linhas. Logo mais, estas linhas eram reforçadas, com o cuidado de mantê-las na forma original. Isto possibilitou o trabalho com a verdadeira aparência da linha gravada na madeira. Foi um trabalho que custou até 27h em cada carta.

O baralho inclui uma transparência geométrica que ilustra como o tarô pode ser decodificado. É o modelo que Tchalaï Ünger sugere em seu livro El Tarot – Por qué? Cómo? Hasta dónde?  E que é baseada na forma em que Jodorowsky divide as cartas.

O baralho é acondicionado de uma forma bastante cuidadosa e tradicional, com um papel de embrulho. (Veja ao lado)

O papel utilizado para as cartas é uma folha de 300g mate (não-brilhoso), depois de feita a impressão é revestida com uma camada de laminado fosco (Opp), que não é nem de verniz e nem de plástico. Este laminado confere mais corpo às cartas, dando uma textura de seda/cera, protegendo-as do desgaste.

Tamanho e operabilidade

O cuidado e o esmero foram tantos que até o tamanho das cartas (de 11,3 X5,95 cm), foi o resultado de diversos estudos e testes.Em que Pabloconcluiu que as cartas neste tamanho eram ideais para o manuseio sem perder a operabilidade.

As cores

Sobre as cores, Pablo Robledo fala de sua experiência com os Tarôs Clássicos: “ao conhecer mais baralhos ‘verdadeiros’ tratei de captar de uma maneira mais fiel a aparência antiga, respeitando ‘muito ao meu modo’ o que para a impressão atual poderia ser considerada como erros”.

As cores foram recalibradas, onde uma outra paleta de cores foi utilizada, deixando as cartas mais harmônicas. Assim, o azul fraco e a cor-da-pele foram suavizadas e o amarelo ficou um pouco mais forte. Observando a figura à esquerda, é possível perceber que a utilização de um azul um pouco mais escuro em conjunto ao mais claro, dá um efeito sutil de profundidade.

Dorso

O dorso das cartas é uma versão similar ao utilizado por François Chosson, Joseph Chafard e Jean Payen (1743).

 Processo de criação

Para a criação deste baralho foram utilizadas os desenhos dos 22 arcanos de Nicolas Conver, Pierre Madenié, François Chosson, Suzane Bernardin, Arnoux & Amphoux , Jean Rochias e François Tourcaty. Para as cortes, as expressivas miradas de Conver. E para as cartas numerais foram utilizados os modelos de Lequart (dito de Arnoult) e os toques barrocos de Joseph Fautrier. Na série de Paus, Pablo utilizou a maneira de pintar de Dodal.

O Diabo neste baralho é baseado nas linhas de Conver e inspirado nos desenhos de Jacques Rochias, 1782 – Neuchâtel, Suíça (mas, neste caso, com um pouco mais de estilo e sem as cobras). O que você vê nas pernas desse Diabo são cabelos, muito comum nos maços realizados em Besançon e Suíça, enquanto estes não se afastaram do cânone gráfico do TdMII e também em algumas catedrais. “Tentei fazer com que as linhas coincidissem dentro do quadrado duplo. Todas as modificações realizadas sobre algum desenho guardaram sempre a proporção original” – afirma Robledo.

A Imperatriz possui brilhantes olhos verdes, é um dos detalhes trabalhados a partir do novo folclore (no caso, o de Camoin). Diversos detalhes manipulados por Robledo, vêm do que ele afirma ser parte de um folclore. A partir de seu gosto pessoal, ele enumerou uma série de modismos que se repetiam entre os diferentes baralhos em que ele trabalhou.

Novidades

A nova edição (fevereiro/2013) apresenta sua principal mudança na forma do colorido. As cartas terão uma aparência de terem sido pintadas por pincéis, alternando partes mais escuras e partes mais claras. Além disso, foi adicionado um efeito de “sujeira” como se estivessem sido usadas por diversas gerações.

Impressões

Pessoalmente falando, acredito que este deveria ter sido o tratamento dado por Jodorowsky/Camoin, Hadar e Sanchez/Rodez aos seus tarôs “restaurados”. Com Pablo, não encontramos nada de “o verdadeiro Tarô de Marselha”, “os símbolos antigos finalmente redescobertos”, “o real Tarô de Marselha” e outros tipos de jogadas de marketing que rondam estes baralhos.  Não é o caso de pôr no lixo as criações destes autores, mas sim perceber o que está por trás dos nomes, títulos e características dadas a elas.

Este rapaz nos brinda com um baralho explicitamente novo, concebido nos anos 2000. De beleza e esforços únicos.

Pablo Robledo, cartier e designer, um imagineiro do Tarô!

Daison Paz

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