A Linguagem do Tarô de Marselha

 

Primeira parte do texto onde Enriquez discorre sobre a linguagem ótica do Tarô de Marselha. A segunda parte será publicada nos próximos dias. Estes textos são uma introdução ao seu livro “Olhando o Tarô de Marselha”, onde esta linguagem ótica será mais detalhada com diversos exemplos práticos.

(Publicado originalmente em inglês: http://www.tarot-authentique.com/tarot-divination/excellence-marseilles-tarot.html)

A Linguagem do Tarô de Marselha

O Tarô de Marselha (TdM) é uma estrutura poética que fala numa linguagem de revelações. Gostaria de sugerir que esta linguagem do TdM opera sob uma lógica distinta e completamente separada da linguagem do que eu definiria como “Tarôs fantasia” (ou seja, tarôs que representam universos fantasiosos, ou tarôs que são desenhados seguindo as fantasias individuais de seus autores). Esta linguagem, em grande parte, ficou esquecida durante o século XX. (A prova mais evidente e dolorosa disto é a idéia de que os arcanos menores necessitavam ser “ilustrados” para ser compreendidos). Parecerá paradoxal, mas vou usar aqui a palavra “ótica” para definir esta linguagem, em oposição ao termo “simbólico” atribuído ao Tarô em suas distintas encarnações ao largo do século XX.

A palavra “ótica” é utilizada aqui para denotar um “sentido aparente” que gera em nós novas e distintas metáforas cada vez que olhamos as cartas. (Quero pensar que esta lógica conecta o Tarô de Marselha com o alusivo “linguagem dos pássaros”, mas isso será motivo de outra reflexão). Este processo se dá porque no Tarô de Marselha cada imagem é primeiro um signo, e logo um símbolo. A Estrela é vista em primeiro lugar como uma mulher ajoelhada que verte água em um arroio. Logo que esta imagem tenha sido processada tanto pela mente consciente como pela inconsciente, poderíamos reparar em seu possível simbolismo: “Esperança”, “A alma”, “Cristo como a primeira estrela matinal”, etc. (Contudo, poucas vezes isto será necessário). Este modo de olhar as imagens é contrário à apreciação simbólica, onde uma imagem é sempre uma representação de outra coisa distinta ao que está representado na imagem.

Um signo é um convite direto a atuar. A Estrela assinala o ato de verter água, exatamente do mesmo modo em que uma faca e um garfo juntos assinalam a proximidade de um restaurante. Iremos comer? Acabaremos de derramar toda essa “água” fora? Quantas vezes podemos olhar à Estrela e saber de imediato que é isso que devemos entregar, sem necessidade de uma só palavra? Neste instante, elucubrar a respeito do simbolismo do pássaro negro que aparece pousado numa árvore em algumas versões deste Tarô perde o sentido. Não há necessidade de desviar-nos para explicar que o imperador Napoleão preferia que suas amantes não se lavassem. “Por isso a Estrela tem o umbigo marrom”. Simplesmente olhamos, e sabemos o que devemos saber. Enfatizar isto parece bobo, porém é vital se queremos entender o valor de trabalhar com imagens que possuam um alto nível de iconicidade, se nossa meta é experimentar o Tarô como uma linguagem de revelações.

Iconicidade? O que é isso?

Olhe o Dois de Ouros do Tarô de Marselha. Duas moedas amarelas se apropriam do formato inteiro da carta, balançando a composição. Uma fita com o nome do impressor enfatiza o dinamismo desta tensão entre dois pólos. Olhando o Dois de Ouros relembramos como reinava uma moeda só no meio da carta do Às de Ouros. Agora que uma segunda moeda aparece no formato, ambas se relacionam com equidade e balanço, em um equilíbrio que será redefinido logo quando uma nova moeda emergir no Três de Ouros.

Logo que dois elementos começam a compartilhar o mesmo espaço, criam uma tensão mútua que os equilibra. Pense em dois pugilistas em um ring de box, um tigre e sua presa, dois amantes cujos olhos se prendem cruzando um bar de esquina a esquina, ou o famoso símbolo do Ying & Yang. Esta transição da “unidade” à “dualidade” fica perfeitamente ilustrada no Dois de Ouros do Tarô de Marselha. A distância entre a idéia e sua representação é próxima a “zero”. Necessita-se apenas uma olhada rápida para capturar sua mensagem.

Olhe agora para o Dois de Pentáculos no Tarô de Rider Waite-Smith (usarei aqui o Tarô de RWS como comparação porque é o primeiro Tarô de fantasia, e o primeiro Tarô que comete o erro de mostrar aos arcanos menores re-ilustrados com motivos fantásticos). As mesmas duas moedas são inseridas dentro de uma lemniscata. O símbolo do infinito é utilizado aqui para reiterar a tensão entre as duas moedas. Como se isto fosse pouco, os autores do RWS desenharam também a um jovem fazendo malabarismos com as duas moedas.

Cada vez que vejo esta carta me faço a mesma pergunta: O que esse cara faz aí?

O jovem e sua lemniscata representam dois passos adicionais entre a idéia e sua representação. No Dois de Ouros do Tarô de Marselha vemos dois círculos e uma curva. No Dois de Pentáculos do Tarô de Rider Waite-Smith temos dois círculos, um oito deitado e um sujeito com um chapéu turco. O Tarô Rider Waite-Smith usa três elementos para dizer o que o Tarô de Marselha diz com somente um.

Esta comparação é perfeita para ilustrar o conceito de “iconicidade” e definir como aplicá-lo ao Tarô.

Um “ícone” é qualquer imagem que usamos para representar uma idéia. É um conceito que vem da Semiótica, a disciplina que estuda os símbolos e nossa relação com eles. “Iconicidade” é um conceito que também provém da semiótica. Descreve o grau de similaridade entre a forma de um signo e seu significado. Quanto mais curto é o caminho entre uma imagem e a idéia que esta representa, mais alto é o nível de iconicidade dessa imagem, e quanto mais icônica a imagem, menos desvios nossa mente percorre para entender-la. Um alto nível de iconicidade é importante porque as imagens comportam-se de uma maneira particular: sua aparência modifica seu significado.

Em seu livro “Desvendando os Quadrinhos”, Scott McCloud nos fala de como geralmente respondemos muito mais ativamente a um personagem de quadrinhos que a uma imagem realista. Isto se deve a um nível mais alto de iconicidade que os quadrinhos possuem, comparados a uma ilustração detalhada. Segundo McCloud, ao dar maior iconicidade a uma imagem, opera-se um processo de “amplificação mediante a simplificação”.

Que significa isto?

Significa que, quanto mais icônica a imagem, mais amplo é seu poder de representação. Uma imagem simples nos possibilita identificarmo-nos com ela. Posto que a aparência de uma imagem afeta seu significado, podemos dizer que quanto mais simples uma imagem é, mais amplo é seu significado.

Um exemplo clássico é a carinha feliz. Uma carinha feliz tem o nível de iconicidade mais alto possível para representar  um rosto humano. A carinha feliz oferece o caminho mais curto entre a idéia de um rosto humano e sua representação. É graças a seu grau de abstração que a carinha feliz pode representar não só a um personagem, senão que a toda humanidade.

Para termos uma carinha feliz eliminamos tudo o que não seja indispensável para representar um rosto humano. Vamos imaginar um processo inverso: peguemos uma carinha feliz e coloquemos nela um pequeno bigodinho. Nossa carinha feliz seguirá sendo bastante simples, mas já não representará à humanidade. Ao invés disso representará a Adolf Hitler, ou a Charlie Chaplin.

Poderíamos fazer nossa carinha feliz ainda mais específica. Um chapéu de coco irá ancorar a imagem até Charlie Chaplin, e uma mecha de cabelo em diagonal a trasformará em Hitler. Esses detalhes são necessários para transformar nossa carinha feliz em Chaplin ou Hitler, mas estas adições são desnecessárias se queremos que a carinha feliz nos represente a todos. Um chapéu, um bigode, ou um pouco de cabelo limitam o que a imagem de uma carinha feliz pode fazer. Esses pequenos detalhes limitam o significado da carinha feliz, prendendo-a em uma só possibilidade.

O que isto tem a ver com o Tarô?

Olhe para Le Bateleur no Tarô de Marselha. A carta mostra um mago a ponto de efetuar um truque. Tal como o vemos, este mago não é ninguém em particular. É simplesmente a “idéia de um mago.” Em razão da natureza do processo de impressão daqueles tempos, o desenho é bastante cru. Estão eliminados todos os detalhes desnecessários.

Compare nosso Bateleur com The Magician do baralho de Rider Waite Smith. Este desenho é muito mais detalhado, seu estilo é muito mais realista. Seu traje é também menos genérico, mais detalhado. Suas roupas nos remetem a um período histórico distinto ao que as cartas foram impressas e isto soma mais um nível de desvio da “idéia de um mago”. Compare o chapéu do Bateleur com o chapéu do Magician e notará que este não tem um. Algumas pessoas gostam de ver no chapéu do Bateleur uma lemniscata, e por isso, os criadores do RWS decidiram eliminar o chapéu e desenharam uma lemniscata no lugar. Este gesto limita o poder de representação da imagem prendendo-a a um significado específico, diminuindo o nível icônico da carta. A lemniscata se comporta como o bigodinho de Hitler, limitando o significado da imagem.

Olhe para os braços do Bateleur e notará que uma mão sustenta uma varinha mágica, enquanto que a outra esconde uma moeda. Este é um signo clássico de prestidigitação, de um ilusionista, que nos remete ao ato de guiar a atenção do espectador. Nosso Bateleur é qualquer mago realizando um truque qualquer. Agora veja o Magician do RWS, mostra uma imagem muito distinta: seus braços foram reposicinados representando a ligação do céu à terra, ilustrando o conceito de “assim como é em cima, assim é em baixo”, que vem do esoterismo. De novo este detalhe limita o significado da carta, dando-nos somente uma possibilidade simbólica.

Olhe agora para a mesa do Bateleur e você a encontrará cheia de objetos que historicamente estão ligados ao uso de um prestidigitador. Alguém sentiu-se inclinado a ver nesses objetos uma representação dos quatro naipes do baralho, assim os autores do RWS colocaram na mesa de seu mago espadas, copas e moedas de dimensões gigantescas. É uma bonita ideia. Há a possibilidade de que estes elementos representem os naipes do baralho, que talvez estejam sugeridos na abertura simbólica dos objetos que vemos sobre a mesa do Le Bateleur, mas no Magician isto não é uma idéia sugestiva, senão a única possibilidade. A decisão tomada pelos seus autores volta a limitar o poder de representação da imagem ao reduzir seu nível de iconicidade.

Em troca da “idéia de um mago” todos estes gestos no RWS nos deixam com uma representação muito específica de um tipo de mago cerimonial.

Em outras palavras, nossa carinha feliz se transformou em Charlie Chaplin.

Ou em Hitler.

Leve em conta que neste caso estamos falando do Tarô Rider-Waite-Smith. Este é um Tarô relativamente simples iconograficamente. Imagine a quantidade de desvios adicionais que se apresentam a nossa mente se olharmos o “Tarô do Senhor dos Anéis”, por exemplo.

Entretanto, não estou dizendo que a linguagem ótica do Tarô de Marselha seja necessariamente “melhor” que a linguagem simbólica dos baralhos fantasia, mas sim sustento que é de fato mais icônico, e seu mais alto nível de iconicidade é o que dá fundamento e força a esta linguagem ótica. Aqui, devemos assumir que no tempo em que os Tarôs eram impressos, que agora se agrupam sob a denominação “de Marselha”, o “vocabulário” do Tarô alcançaram uma maturidade ou estabilidade suficiente para que suas imagens pudessem ser repetíveis e reconhecíveis. Isto se confirma pelo fato de que nenhuma mudança relevante no número de cartas, sua ordem, ou a natureza de seus motivos tenham se efetuado desde então. Hoje em dia podemos observar centenas de variantes que “maquiam” o Tarô, mas mesmo que o mago de um Tarô seja um “gato boêmio”, e o de outro Tarô seja um personagem do Planeta dos Macacos, ambos nos remetem finalmente à idéia do mago. A estrutura do Tarô permanece fixa. A única exceção seria a erradicação das imagens originais dos arcanos menores. Precisamente por causa de Arthur E. Waite, estas imagens foram ignoradas e substituídas por alegorias fantasiosas cuja conexão com as imagens originais é incerta. Contudo, ainda aqui o número de cartas e seu ordenamento, ou seja, sua estrutura geral, permanece intacta. Isto é crucial para entender como todas essas tentativas para “melhorar” o Tarô resultaram em imagens menos efetivas. As imagens mais simples do Tarô de Marselha convidam nossa mente a realizar mais conexões e analogias que nenhum dos Tarôs fantasiosos contemporâneos consegue. O Tarô de Marselha nos dá mais espaços vazios para preencher. Este processo analógico possibilita que obtenhamos respostas mais profundas e imediatas aos nossos problemas.

Gosto de definir o Tarô como um bisturi. O utilizamos para cortar profundo no inconsciente. Um bisturi necessita somente de uma lâmina afiada e um manuseio firme. Mas transformamos o Tarô em um canivete suíço ao somar-lhe toda classe de penduricalhos simbólicos, assumindo que ao fazê-lo agregamos mais elementos narrativos. Entretanto, são esses elementos narrativos que nos distanciam de experimentar revelações instantâneas. Quando dirigimos nosso olhar ao Tarô de Marselha não há necessidade de contos. Simplesmente vemos uma mensagem. Isto acontece porque as imagens são mais icônicas, mais próximas à idéia que representam. Não há nenhuma necessidade de memorizar as fábulas de Camelot, a biografia de Flash Gordon, ou as Upanishads. Todas essas coisas podem nos fazer seres humanos melhores, mas não formam parte da linguagem ótica do Tarô. Trabalhar com o Tarô de Marselha requer que esqueçamos tudo o que cremos saber sobre o Tarô. Trabalhando com o Tarô de Marselha podemos obter um entendimento imediato de nossas possibilidades, mas isto só acontecerá se, em troca de entender cada imagem como um arquivo de conteúdo simbólico, entendendo-as como eventos visuais.

Enrique Enriquez
Nova York, Dezembro de 2007.

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