O Tarô fala a Linguagem dos Pássaros

 

Esta é a continuação do texto anterior de Enriquez: A Linguagem do Tarô de Marselha.

É uma prévia do que ele trata com mais detalhes em seu livro “Looking at the Marseille Tarot” (ainda sem título definitivo em português).

Alguns dos mesmos tópicos desenvolvidos com mais profundidade no livro, são aqui introduzidos. Como “transformar ritmos em mensagens”, a captação das percepções e vivências próprias na interpretação das imagens e a vivência poética das mensagens.

Sobre a Linguagem dos Pássaros, como o próprio Enriquez diz, é tratada de uma forma diferente daquela que ficou historicamente reconhecida como tal. O venezuelano parte das evidências que nos chegaram, mas usa-as como pano de fundo para sua abordagem peculiar ao Tarô.

O Tarô fala a Linguagem dos Pássaros*

 

Observe o fogo que sai da torre. Olhe como se repete ao longo desta sequência de três cartas: a mesma linha diagonal e azul descende da parte superior da carta La Maison Dieu à parte média em Temperance. O fogo transforma-se em água. Logo baixa e se fratura em dois em Le Toille. O ritmo criado por essas três cartas juntas fala de como aquilo que só existe como um fogo intelectual deve fazer-se líquido que possa verter-se sobre o mundo. “Mãos à obra” parece ser a mensagem.

Compreende?

O Tarô de Marselha tem uma qualidade única: fala a linguagem direta das revelações. Quando percebemos a essência de suas imagens além do seu significado simbólico, isto é, como vibrações, essas imagens despertam em nós o entendimento da intenção original de seus autores. Nesse instante as imagens do Tarô de Marselha se transformam em música para nossos olhos. Como toda música, esta nos move sem necessidade de palavras porque fala diretamente a nosso inconsciente, dando-nos um tipo de força que vem de uma certeza íntima. O Tarô de Marselha transforma o ato de observar em uma meditação. Tomando uma licença poética gostaria de sugerir que isto acontece justamente por que o Tarô de Marselha fala a Linguagem dos Pássaros.

Podemos definir a Linguagem dos Pássaros como um sistema de codificação inventado pelos trovadores da época medieval para transmitir mensagens sem que estas fossem detectadas pelas autoridades, se bem que também é possível pensar que esta linguagem tenha sido usada com fim meramente poético. Como linguagem simbólica, a Linguagem dos Pássaros é associada à alquimia. Se diz que a Linguagem dos Pássaros pode ter sido inspirada no sufismo, e alguns autores traçam a origem do termo com “A Conferência dos Pássaros”, escrita entre 1120 e 1157 por Farid Ud-Din Attar. Outros preferem pensar que o termo Linguagem dos Pássaros vem do fato de que, quando os pássaros trinam suas melodias, escutamos um som bonito sem que compreendamos seu significado. Outros ainda preferem vincular a Linguagem dos Pássaros com una linguagem angelical, uma linguagem de revelações que provêm diretamente dos céus.

Parece haver duas concepções de Linguagem dos Pássaros. Uma fala de um antigo sistema de símbolos, enquanto que a outra fala de uma “forma de jogar com as palavras”, própria da língua francesa. Ainda que pareça tentador a alguns, não vou propor aqui que o Tarô de Marselha seja essa antiga linguagem simbólica. Pelo contrário. Me interessa entender como essa “forma de jogar com as palavras” dos franceses pode mover-se através das imagens, nos dando pistas no que diz respeito a como entender a mensagem que nossos amigos, os autores anônimos do Tarô, ocultaram à primeira vista. Vários autores da língua francesa tem explorado a relação entre o Tarô de Marselha e a Linguagem dos Pássaros, mas sinto que a maioria deles tem pretendido ver relações demasiado literais aí: “Na La Maison Dieu se lê ‘Le Ame e son Dieu’, ou seja ‘a alma e seu Deus’”. “A ave que a Imperatriz ampara se vê no céu de Le Monde”. “O livro da Papisa tem 17 linhas e a carta 17 é a estrela: que possui um pássaro negro ao fundo!”… Em vez disto, eu gostaria de propor uma definição mais ampla da Linguagem dos Pássaros baseada no imaginar em que cada carta do Tarô é uma letra de um alfabeto que podem aplicarse as mesmas regras nas quais os franceses jogam com as palavras. Porém não percas tempo tratando de encaixar cada carta com cada letra de ‘A’ à ‘Z’. Evite as jaulas! Em lugar disso, trate de perceber o princípio que opera na comparação.

Observe as letras como formas e descubra suas relações. O alfabeto é um sistema cujas partes individuales são claramente diferenciáveis, e, contudo, podem agrupar-se visualmente. O ‘O’ contém ao ‘C’ e ao ‘G’. A ‘E’ contém a ‘F’, a ‘I’ e a ‘L’. A ‘M’ contém a ‘W’. A ‘B’ contém ‘P’ e também a ‘F’. A ‘K’ parece filha do ‘X’ com o ‘I’. A ‘I’ também teve uma filha com a ‘C’: a ‘D’. Entender o que significam exatamente estas relações não é tão importante como perceber-las. Portanto, não podemos deixar de nos preguntarmos: se a ‘F’ é uma ‘E’ que perdeu o chão: terá se tornado mais fantasiosa?

Aplique esta visão às cartas. Veja quais contêm a quais. Detectar a repetição de detalhes e agrupá-los transforma-se em um ato narrativo. Tal como acontece com as letras, no Tarô de Marselha as formas e suas relações falam.

Recorde também que os alfabetos possuem consoantes e vogais. Em Francês, que é o idioma “nativo” do Tarô de Marselha e também da Linguagem dos Pássaros, uma vogal se diz ‘voyele’, que soa igual a ‘voit I elle’, ou seja, “o vejo”. No Tarô de Marselha há umas cartas que nos falam tão somente olhando-as. São os arcanos maiores. Também em francês, as consoantes chamam-se de ‘consonnes’ que quer dizer algo como ‘sonner avec’, ou seja, “sonhar com”. As consoantes ampliam e reformulam o som das vogais. No Tarô de Marselha os arcanos menores nos ajudam a redefinir a mensagem visual dos arcanos maiores.

Observe a um ou mais arcanos menores juntos é como olhar três consoantes juntas. Sua imagem nos apresenta um som impronunciável. Mas ao colocar junto a eles um arcano maior, podemos falar. Se as consoantes formam o corpo de uma palavra, as vogais a animam. Não esqueças que o Tarô é literalmente um jogo que se cria ao juntar os 22 “trunfos” a um baralho. Ou seja, ao somar-lhe umas “vogais”, uma alma.

Estes princípios nos permitem fabricarmos um sistema para transformar ritmos em mensagens. A maneira na qual descrevi as três cartas no começo deste texto é um exemplo desse sistema. Exploremos outro:

 

Não importa quantos significados simbólicos sua mente racional tenha aprendido, ao olhar estas quatro cartas seu inconsciente só reparará em três coisas: forma, cor e ritmo. Em vez de perguntar-se “o que vejo?”, pergunte-se: “como é este sentimento?” Da mesma forma que os koan Zen, cada carta nos convida a aproximar-nos para fora de nossos confins racionais. Uma das chaves para entender a linguagem dos pássaros é a homofonia. Posto que várias palavras soam iguais, um som pode ter mais de um significado, e posto que os sons são formas, podemos esconder uma mensagem em uma palavra “a plena luz”.

Uma característica importante deste código é o fato de que ignora o significado simbólico das palavras. Um adepto à Linguagem dos Pássaros detectará uma mensagem nas formas, nos sons, e no ritmo, não no significado cultural ou etimológico do vocábulo.

Apliquemos esta idéia às nossas imagens. Perceba que estás parado sobre um mundo que gira e entenderás o significado da ‘Roda’. Encurve tuas costas para arar a terra e verás significado da carta número 13. Caminhe direto e sem piscar e entenderás o que quer dizer ‘O Louco’. Detenha-te e aceita ao céu e escutarás a trombeta do anjo do ‘Juízo’. Esqueça que ‘A Roda’ foi um instrumento de tortura e olhe como a estrutura da carta pode reduzir-se a um círculo. Esqueça que o anjo do ‘Juízo’ faz um convite ao ressuscitar dos mortos e note como está rodeado por uma nuvem também circular. Olhe alternadamente à ‘Roda’ e ao ‘Juízo’ e notarás um movimento ascendente. Um ritmo. Mas nossa palavra está feita de quatro letras. A primeira e a última lhe dão forma ao seu som. As duas no meio lhe dão profundidade. Esqueça que a ‘Morte’ te sorri e perceba a curvatura de suas costas e a da borda inferior de sua foice, a curva do mesmo círculo da ‘Roda’, que aqui começa a abrir-se. Essas costas encurvadas estão direcionadas às costas do ‘Louco’, cujos olhos observam ao anjo. O som dessa palavra que vemos nos levanta!

Temos a tendência a acreditar que para que os sons tenham sentido, devemos transformá-los em palavras, mas as palavras que usamos para comunicar o sentimento que essas quatro cartas nos provocam não importa. As palavras são sons que se transformam em sentimentos, e esse é precisamente o segredo da Linguagem dos Pássaros: é impronunciável. É um atalho entre o entendimento racional e o conhecimento intuitivo que transforma as imagens diretamente em emoções. Uma linguagem que está além das palavras.

Enrique Enriquez

* Este texto sugere uma aproximação poética à relação entre Tarô de Marselha e a linguagem dos pássaros que não deve tomar-se como verdade histórica, posto que a verdadeira relação entre ambos, se é que existiu, poderá não se conhecer jamais. É um trabalho em processo e que por razões de espaço e amplitude não posso compartilhá-lo por inteiro aqui.

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