Método da Rima para os Olhos

Desta vez Enrique Enriquez condensa sua abordagem tarológica nestas menos de trinta sentenças, no método de leitura e interpretação denominado de “Rima para os Olhos”. Aqui está tudo o que Enriquez desenvolve nos seus ensaios Looking at the Tarot Marseille e em Embodied Tarot, que serão em breve lançados em português. Mesmo para quem não se aprofunde nestes seus outros trabalhos qualquer um, com um baralho e algumas horas de prática, pode entender a lógica neste método.

É um ótimo método para principiantes no Tarô e para quem tá de saco cheio de fórmulas esotéricas enguiçadas.

1. Por que o Tarô de Marselha? O Tarô de Marselha, é o tarô dos imagineiros, carrega o poder das catedrais para mover a psique humana e, portanto, a sua linguagem carrega o poder de reconstruir cada um de nós como um espaço sagrado.

 

2. Olhe para três cartas, quatro no máximo. Este é o poema.

 

3. Por que eu chamo qualquer seqüência de cartões de um “poema”? Pois, como em um poema escrito, o tarô fala a linguagem da forma. Precisamos nos deixar ser levados pela forma do poema, observando seu sotaque e ritmo.

 

4. A primeira coisa é que as cartas – toda e qualquer seqüência de cartas – nos dizem que vamos resolver o enigma sobre a mesa, nos dá a capacidade de resolver um enigma em nossas vidas. “Similia similibus curentur”. Um ato de magia.

 

5. Se o personagem em uma carta está olhando para fora da sequência, eu coloco uma nova carta em frente a ele/ela para saber o que ela/ele está olhando e assim fechar a sequência. Mais cartas do que isso e eu começo a me sentir confuso. Eu não trabalho com métodos de leitura, porque, como já assinalei antes, não há nenhum significado intrínseco em uma carta, muito menos na sua posição.

 

6. Primeiro vamos olhar para o ritmo geral: levantando, caindo, constante. Então, olhamos para as rimas.

 

As rimas entre o Bateleur e a Temperança7. O que é uma Rima para os Olhos? Rimas para os olhos são originários da poesia. A noção de que duas palavras com um som semelhante podem ser trocadas para criar um jogo de palavras. A idéia de que duas palavras que compartilham uma forma semelhante e que podem ser usadas de forma intercambiável para diversão ou para fins comunicativos e que se a forma do Tarô não é auditiva, mas visual levou-me a pensar que então muitas imagens têm um “som” similar e que podem ser apreciadas naturalmente. Elas são rimas para o olho. A primeira vez que vi isto representado foi com Temperance e Le Bateleur, nas formas das suas posturas, braços, cabeças, chapéus etc., eles rimam!

 

8. A única coisa relevante em uma única carta é o que rima com outras cartas. As rimas definem os atributos ativos de cada carda numa sequência dada. Nós ignoramos os atributos passivos.

 

9. Nós não sabemos o que uma única carta significa, nem precisamos nos preocupar com isso. (Mais tarde) vamos falar sobre a minha suspeita do que cada carta provoca, mas que será sempre uma idéia provisória, inútil no contexto de uma leitura.

 

10. Eu iria mais longe, ao dizer que cada carta de tarô é uma imagem querendo ser transformada em uma metáfora quando o espectador, com base em sua própria experiência, encontra uma referência para ela. A imagem na carta não é uma metáfora, mas quer ser uma metáfora. Uma vez que a referência sempre muda, o significado será sempre transitório.

 

11. Nós só podemos entender uma carta contrastando-a com outras cartas em uma seqüência.

 

12. Trunfos, naipes numerados e cartas da corte são todas partes de um todo. Os trunfos e as cartas da corte não são mais “valiosos” do que os naipes numerados, mas aquelas podem fornecer o foco para a nossa narrativa, uma vez que suas imagens retratam personagens humanos.

 

13. As cartas de uma seqüência não retratam eventos separados. Nós lemos toda a seqüência como uma única frase/idéia. Entenderemos as cartas como uma linha narrativa que vão do passado-esquerda para o futuro-direita, mas é tudo parte de um único movimento.

 

14. Como conseqüência dos pontos anteriores, não basearemos o nosso primeiro olhar sobre os atributos dos naipes, ou sobre os valores numerológicos dos naipes numerados.

 

15. O propósito de olhar para as cartas desta maneira é obter visões. Veremos coisas que não estavam lá antes. Revelações. Olhando para o tarô dessa forma tomaremos um desvio para encontrar uma resposta direta.

 

16. Há um verso medieval, atribuído a Nicolas de Lyra, que representa os quatro níveis em que um texto pode ser interpretado. “Littera gesta docet, quid credas allegoria, moralis quid agas, quo tendas anagogia” isto é: “A letra ensina a ação, a alegoria ensina o que você acredita, a moral ensina como você age, e a anagogia ensina onde você está indo”.

 

17. Precisamos estar familiarizados com o princípio da analogia. O tarô é uma máquina analógica. Qualquer carta, ou qualquer seqüência de cartas, podem ser ligadas a nossa experiência pessoal, por analogia. O importante aqui é que tenhamos um quadro de referência. Neste caso, nós temos todos esses sentimentos que experimentamos antes de realmente olharmos para as cartas. Em alguns casos, o nosso quadro de referência será uma questão. Em alguns outros, o nosso quadro de referência será o nosso estado de espírito. Nosso cliente também traz o seu estado de espírito para a mesa, e sua mente irá estabelecer analogias entre o que dizemos, ou o que vê nas cartas, e seu estado de espírito. A abordagem não-teórica para a abordagem das cartas sempre produzirá significado analógico.

 

18. Nosso quadro de referência é o que nos diz o que procurar. Ele também pede para que cada leitor ou leitora tome responsabilidades por suas próprias metáforas.

 

19. Cada vez que olhamos para as cartas estamos (tentando) reconhecer a nossa pergunta ou o assunto das imagens que temos diante de nós.

 

20. Uma pessoa pode estar se cristalizando, necessitando, por conseguinte, tornar-se mais orgânica. Uma pessoa pode estar se expandindo, portanto, há a necessidade de contrato. Uma pessoa pode estar com frio, por isso necessita aquecer-se, uma pessoa pode estar em ordem total, portanto, tem a necessidade de quebrar-se no caos, etc.

 

21. Como sabemos se uma pessoa está se contraindo, expandindo, etc? Isso é o que os naipes numerados nos dirão.

 

22. Quando olhamos para os naipes numerados podemos notar se a sequência vai da ORDEM ao CAOS, de DETERMINADO para INDETERMINADO, do ORGÂNICO para CRISTALINO, do MORNO para o FRIO, ou da EXPANSÃO para a CONTRAÇÃO.

 

23. Em termos mais amplos Paus e Espadas contraem-se na medida em que elas evoluem através da geração de uma forma sólida no meio da carta.

 

24. Taças e Moedas se expandem até tomarem toda a superfície da carta.

 

25. Mesmo assim, podemos ver que as Espadas estão se expandindo, se as comparamos com Paus. Também podemos ver que as Moedas têm um ponto de vista particular que as expandem sobre um plano horizontal, enquanto que as Copas ‘amontoam-se’ ou expandem-se em uma linha vertical plana. Todos estes são sinais de movimento, e esse movimento nos dará, por analogia, uma visão sobre o processo que uma pessoa está experimentando.

 

26. A forma torna-se o significado e o ritmo torna-se a mensagem.

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